
Talvez eu devesse saber mais como lidar com a morte, devido a profissão que escolhi, mas ainda não sei. Talvez eu devesse diferenciar melhor paciente de amigos, e ainda tenho dificuldade. Alguns pacientes se tornam amigos, e hoje se foi uma importante "amiga", se assim a posso chamar.
Segurar o choro somente pela ética profissional? Impossível e desnecessário, pra quem convive com essas pessoas...
Quando a vi chegando pela última vez no ambulatório, pálida, sem forças e carregada pela família, meu coração apertou... corri lá na frente, dei uma abraço nela como de costume, e perguntei: "O que foi, minha amiga?". Ela respirou fundo, tentou se manter em pé por um instante e simplesmente sorriu pra mim...
Aquela imagem se contrastava com as cenas que guardo dela, chegando ao ambulatório cheia de graça e beleza! Maquiada, sempre! Quimioterapia? "Não, obrigada! Quero morrer como eu sou, bonita e forte, minha família precisa de mim assim!". Fez tudo da maneira que planejou... Estava na luta contra a leucemia há 3 anos, e eu estava acostumada a vê-la pelo menos uma vez por mês por pelo menos 4 dias na semana. Por falar em luta, guerreira era uma de suas qualidades, aliada a sabedoria. Era sentar perto dela que começava a transbordar histórias de vida, o que nos transmitia esperança e força. Olha que interessante... ela ia receber força, e nós é que nos enchíamos de esperança! "Força! Não desista! Coloca um sorriso no rosto!".
Ontem ela estava de volta, se esforçando pra manter o sorriso nos lábios... a dor era intensa! Se esforçava pra manter a calma, apesar das fortes crises de dores na perna. Sentei ao seu lado, e fiquei somente segurando em sua mão. Ela segurava com força. Realmente não sabia o que dizer... eu sabia o que estava acontecendo. Ela sabia o que estava acontecendo. Ela estava indo...quietinha... e eu não sabia o que dizer... Queria agradecer por ter aprendido tanto com ela. Por tantas palavras de sabedoria, e por ser um exemplo de mulher! Era apaixonada pelo marido e ele por ela! Casados há 52 anos, e totalmente apaixonados e cuidadosos um com o outro, um verdadeiro exemplo de amor pra mim. Mas eu simplesmente me despedi dela aquela manhã como um dia comum, dizendo pra continuar firme e que Deus estava com ela! Ela me beijou e sorriu mais uma vez (e a última vez) pra mim... eu realmente esperava a encontrar hoje, ou melhor, eu realmente queria a encontrar hoje, bem e feliz!
Infelizmente ela não voltou no outro dia. Ela sabia que não voltaria. Preferiu ficar em casa, e aos lados dos seus queridos, ela se foi, exatamente do jeito que queria e planejara, de forma tranquila e serena.
Entender a morte? Ainda não entendo... Não sofrer por lidar com esse tipo de acontecimento todas as semanas, não consigo! Não me envolver, quando se convive com pessoas de histórias tão envolventes? Impossível, pelo menos por enquanto. Talvez eu aprenda, talvez não... talvez seja assim mesmo, pessoas marcam a vida umas das outras, independente dos lugares ou das posições que elas ocupam no momento em que elas se encontram. Eu não sou diferente não... Guardo dentro de mim histórias, sonhos, brincadeiras e até dores daqueles que de uma maneira ou de outra marcaram minha vida.
Hoje fui lá, dar o último tchau pra minha querida amiga. Estava linda como sempre. Usava um terninho cinza, os olhos estavam fechados, batom dos lábios e rosas, muitas rosas. As lágrimas não se seguraram. Me lembrei de sua alegria e perseverança... sorri para ela, mesmo sabendo que ela não estava mais lá.
Sorri, chorei, sorri.
Saí dali tomando forças sabendo que novas "amigas(os)" chegarão, e que devo estar ali, esperando todas com um sorriso no rosto, perseverando naquilo que Deus me capacita a fazer: novos amigos, ainda que sejam, novos breves amigos!
** A foto escolhida foi em homenagem a ela, que sempre chegava com a caixinha de Mentinha e colocava em minha bolsa, como forma de agradecimento pelo serviço prestado.


